“Era para ser um domingo normal. Um domingo desses em que todos poriam roupas-de-ver-Deus e iriam à paróquia ou igreja mais próxima para o ritual cumprir. E depois sairiam com a mente lavada por ter feito a sua parte: pedir. Provavelmente, Deus faria a parte dEle: dar.
Era para ser um domingo desses em que as famílias se reuniriam e comeriam, beberiam e cantariam no karaokê. E dividiriam entre si todo o vigor de uma vida feliz, em família e em paz. Era para ser, mas não foi...
E o que seria um domingo normal tornou-se uma grande festa, na qual as famílias se uniram e cantaram a mesma canção, e comeram no mesmo prato e fizeram a mesma oração. Um dia em que o sol brilhou para todos e que o simples fato de existir foi suficiente para consolar a dor de toda uma vida.
Um dia em que nem a areia do chão fez sucumbir a alegria de ter alguém pra dizer: “obrigado!”. Que nem a falta de dinheiro fez a mãe, de olhar sofrido, desacreditar que o amanhã pudesse ser melhor. O mesmo amanhã que traria consigo a esperança de que o ‘des’ da palavra desempregado pudesse, enfim, ser esquecido, dando lugar a outra palavra que trouxesse orgulho ao pai de família. Um dia em que vimos Deus em cada minúsculo olhar.
Eu vi Deus. Não era um deus adulto, era um menino-deus. Seu nariz escorria, seus pés negros, como uma noite aconchegante, pareciam nuvens escuras prontos a descarregar uma tempestade. Seu sorriso era singelo e meigo, não tinha medo de sorrir. Seus pés agarravam firmemente o chinelo de dedo. Sua voz suave chegou até meus ouvidos de um modo que só um menino-deus saberia fazer:
‘- Ei moço, onde é que fica o cinema?’
- Vem comigo que eu te mostro!
Foi a primeira vez que guiei um deus! Foi a primeira vez que falei com um menino-deus.
O dia se fez e com ele todos fizeram alegres os mais tristes olhos. E no fim do dia todos viram Deus: deuses negros, pardos, mamelucos e cafusos. Deuses femininos e masculinos. Deuses nordestinos, osasquenses e paulistas. Deuses com pés de lata que subiam e desciam a rua, felizes da vida. Deuses sofridos pela falta de ouvidos que os escutem. Deuses que não tiveram para onde fugir e, desesperados, fugiram para um lugar onde ninguém os visse. Até que, num belo dia, alguém deles se lembrou, e fê-los deuses por um dia. Apenas por um dia, no qual tiveram todas as atenções voltadas para si. Como Deus, que todos os dias tem olhos voltados pra Si, olhos que pedem e que nessse dia se tornaram olhos que doam. Doando alegria e esperança e estes deuses que nunca tiveram seus pedidos atendidos e que, por fim, puderam sentir-se queridos como um Deus, agraciados pelo Dia Nacional da Ação Voluntária!”
(Augusto Samora – Deivid – voluntário)